Carvalho, Isabel Cristina de Moura. (2001). A Invenção Ecológica: Narrativas e Trajetórias da Educação Ambiental no Brasil. Porto Alegre: Ed Universidade/UFRGS.

P. 229

ISBN 85-7025-610-8

Resenhado por Ari Paulo Jantsch

26 de novembro de 2002

Abstract
With the support of biographic narratives related by Brazilian environmental educators and ecological leaders, the author talks about "the play of the interpretations in which the meanings of environmental are produced, considering the universes of tradition and alterity of the living experiences, individually and collectively, on a certain historical time." This book uses a theoretical and metodological framework with an evident hermeneutic concern. The first part of this book "focuses on the conceptual debate about the hermeneutic logos," and in the second part in the act of affirming on the ethos (polifonic and polissemic) that environmental education evokes, the tension and temporality of the defined "ecological subject," a subject permanently re-interpreted in the environmental field. While the author offers an explanation of the expressive subjects' narratives of the environmental field, she defines her own interpretation of the subjects. In short, the book symbolizes a social audience in which all present are speaking with due knowledge and due qualifications about the environmental field.

Resumo
A autora, baseada em narrativas biográficas de educadores ambientais e de lideranças ecológicas do Brasil, discute “o jogo das interpretações no qual se produzem os sentidos do ambiental, levando em conta os universos da tradição e da alteridade das experiências vividas, pessoal e coletivamente, em uma certa temporalidade histórica”. Em termos teórico-metodológicos, uma evidente preocupação hermenêutica perpassa a obra, seja na primeira parte, que “trata da discussão conceitual sobre o logos hermenêutico”, seja na segunda parte que evoca, na tensão e temporalidade do vivido, o designado “sujeito ecológico” em afirmação no ethos (polifônico e polissêmico) da educação ambiental, sujeito este permanentemente reinterpretado no campo ambiental. Ao mesmo tempo em que a autora interpreta as narrativas dos sujeitos expressivos do campo ambiental, explicita a própria interpretação desses sujeitos. Em síntese, o livro simboliza um auditório social onde todos os presentes estão debatendo com conhecimento de causa e qualificadamente o campo ambiental.

A Invenção Ecológica

Antes de nos referirmos estritamente ao processo e resultado da pesquisa da autora, vale evidenciarmos a autora e a sua pesquisa a partir do olhar da orientadora e apresentadora do livro. Segundo Hermann (p. 12), a autora realizou “uma cuidadosa investigação que traz à tona a tensão entre a constituição do campo ambiental e os processos estruturantes e dinâmicos protagonizados pelos educadores ambientais” (grifo nosso). E continua Hermann (p. 13): “Valendo-se das possibilidades compreensivas da hermenêutica, a autora pode traduzir os sentidos sobre o ambiental”. Nesse sentido, ainda segundo Hermann (p. 13), “A educação ambiental passa, assim, a ser interpretada a partir da linguagem e da história, em que se reconhece a impossibilidade do sujeito colocar-se fora do contexto investigado”.

No tocante aos dados da pesquisa que culminaram na obra em questão, a autora baseou-se em narrativas biográficas de dezesseis educadores ambientais e de duas lideranças ecológicas. Segundo a autora (p. 20), onze dos dezesseis educadores ambientais podem ser considerados educadores ambientais stricto sensu e cinco profissionais ambientais que fazem educação ambiental, mas que não se definem em sentido estrito.

Embora possamos visualizar uma constituição de alguma maneira heterogênea do conjunto dos sujeitos pesquisados, a autora argumenta haver um único universo de narrativas biográficas (“educadores ambientais lato sensu”), uma vez que a diferença interna do grupo pesquisado serve “apenas como referência para ajudar a compreender algumas nuanças da EA [Educação Ambiental], como, por exemplo, a porosidade de suas fronteiras e seus gradientes de afirmação e aceitação dentro do campo ambiental” (p. 20). Contudo, os construtos teórico-metodológicos adotados pela pesquisadora permitem, perfeitamente, assumir as diferenças no interior da conceituação em torno da Educação Ambiental como constituintes de um imaginário que assume uma mesma direção. Nesse sentido, a diferença contribui para o debate e jamais para a inviabilidade do projeto social maior: a Educação Ambiental em um tempo-espaço que evidencia, sob a marca da contradição, a imperiosidade do diálogo do homem com a natureza em toda a sua extensão e em toda a sua dinâmica. Nesse sentido, o universo de sujeitos mencionado não é aquele que numa concepção ingênua poderia ser assumido como um real indiviso, mas como algo que guarda em si a possibilidade ontológica da diversidade. Aliás, é o que funda epistemológica e politicamente tanto as pesquisas quanto as militâncias institucionalizadas (a exemplo das ONGs) em torno da inteireza da natureza em qualquer espaço no atual tempo histórico.

Ainda sobre o universo da pesquisa, para além da idéia tradicional de amostra, a autora assegura buscar “recortar um corpus de relatos expressivo da experiência dos educadores ambientais e significativo dos caminhos da educação ambiental no Brasil” (p. 20). Cabe salientar, ainda, que os dezesseis educadores ambientais em questão “são pessoas inseridas profissionalmente em instituições governamentais ou privadas com finalidades públicas (do tipo ONGs e fundações de cunho social e científico), que gozam de prestígio e reconhecimento por sua atuação no campo ambiental de um modo geral e na EA em particular (p. 21). Reconhece a autora que a preocupação teórico-metodológica em nenhum momento assumiu a clássica idéia de representatividade sob os critérios propriamente estatísticos. Ao invés da clássica representatividade, está em jogo a expressividade dos atores sociais que assumiram a Educação Ambiental no Brasil, bem como o seu conteúdo interpretativo.

Isso posto, podemos afirmar que uma evidente preocupação hermenêutica perpassa a obra A invenção ecológica: narrativas e trajetórias da educação ambiental no Brasil, produzida por Isabel Cristina de Carvalho. Do início ao fim do livro, a autora busca explicitar uma apreensão, uma análise e uma compreensão da realidade que foge ao cânone cientificista baseado no complexo epistêmico-político da certeza, da verdade, da objetividade dos fatos e das coisas, da não contradição, da razão autolegitimadora e da empiria auto-explicativa. Nesse sentido, a autora explicita, desde a parte inicial de sua exposição, que “para dar conta dessa problemática sem reduzir a sua complexidade, o modo hermenêutico de compreensão pareceu-me o mais apropriado para evidenciar (...) uma experiência historicamente situada” (p. 15). E continua: “a preocupação guia deste livro é discutir o jogo das interpretações no qual se produzem os sentidos do ambiental, levando em conta os universos da tradição e da alteridade das experiências vividas, pessoal e coletivamente, em uma certa temporalidade histórica”. Nesse sentido, afirma, ainda, a autora, que procurou “evidenciar o educador ambiental como sendo, ao mesmo tempo, um intérprete e um sujeito de seu campo, ele mesmo ‘interpretado’ pela narrativa ambiental” (p. 20-1). Assim, a autora do livro, ao mesmo tempo em que interpreta as narrativas dos sujeitos expressivos do campo ambiental, explicita a própria interpretação desses sujeitos. Em síntese, o livro simboliza um auditório social onde todos os presentes estão debatendo com conhecimento de causa e qualificadamente o campo ambiental.

Uma vez que a construção teórica da envergadura da pesquisa e do livro em questão é algo situado num uni-diverso denominado comunidade acadêmica, é válido situarmos, também, os principais referentes da pesquisadora e autora. Sendo a hermenêutica o guia teórico-metodológico da obra, é oportuno ressaltar a presença anunciada pela autora, bem como a presença do pensamento na via da imanência. Entre os hermeneutas anunciados aparecem dois contemporâneos, quais sejam: Gadamer, com o conceito de experiência (p. 21-2) e Ricoeur, com o conceito de identidade narrativa (p. 22-3). Entre as presenças num caráter imanente ao discurso, aparecem pelo menos dois clássicos da filosofia. Assim, Nietzsche, apontado na apresentação (Hermann, p. 13), está densamente presente na obra como um todo, eis que a interpretação aparece como a chave de leitura básica da experiência da educação ambiental lato sensu. Nesse sentido, reiteramos Hermann (p. 13) ao afirmar tratar-se o livro de “um texto articulado e consistente, no qual o diálogo com a tradição, os mitos e os ritos se entrecruzam com as experiências do mundo daqueles que protagonizam esse acontecer da educação ambiental”. Ainda, entre os filósofos clássicos, aparece com destaque Heidegger, especialmente no uso do conceito de alteridade, amplamente reivindicado na obra.

No tocante à base hermenêutica associada à ecologia, a autora dialogou com muitos intelectuais que de uma ou de outra maneira são herdeiros dos fundamentos da hermenêutica e que também, de uma ou de outra maneira, reproduzem e reelaboram os clássicos. Apenas para exemplificar, mencionamos o apoio teórico em Enrique Leff. Podemos dizer que o conceito de complexidade imanente à obra é extraído em boa parte desse intelectual orgânico (noção gramsciana) da formação e do saber ambiental. No entanto, face o grande trânsito da autora entre as contribuições advindas da hermenêutica, há de se dizer que a tradição da hermenêutica encontra a devida explicitação na obra, tornando-se ela mesma um exemplar emblemático dessa tradição, seja na primeira parte do livro, que “trata da discussão conceitual sobre o logos hermenêutico” (p. 24), seja na segunda parte que evoca, na tensão e temporalidade do vivido, o designado “sujeito ecológico” em afirmação no ethos (polifônico e polissêmico) da educação ambiental, sujeito este permanentemente reinterpretado no campo ambiental, especialmente no ethos referido.

Mas a autora não se limita às contribuições demarcadamente hermenêuticas no continuum da sua exposição. Também se apropria do conceito de campo social, proposto por Bourdieu (p. 19), um sociólogo com ampla e profunda produção sobre o lugar do simbólico nas relações sociais. E assim como dá espaço à explicitação do pensamento de caráter hermenêutico do teólogo Leonardo Boff (p. 104s), dialoga com autores como Marcuse e Habermas e com a tradição mais definidamente marxista, a exemplo de Hobsbawm, Jameson e Souza Santos. Enfatizamos que tal amplitude teórica em nada comprometeu a coerência do pensamento da autora. Pelo contrário! Tal expediente fez chegar ao público leitor um amplo espectro do imaginário sobre o cerne e o entorno do pensamento e da Educação Ambiental, resguardadas as diferenças e realçado(s) o(s) sentido(s) do sujeito ecológico (também uni-diverso).

Afora a introdução e as considerações finais, a exposição propriamente dita da pesquisa da autora é feita em duas partes. A primeira parte, a trama dos sentidos na tradição ambiental é composta de dois capítulos, sendo o primeiro intitulado o educador ambiental como intérprete (p. 29-34), e o segundo, a tradição como horizonte de significação do ambiental (p. 35-67). A segunda parte do livro é denominada vidas e narrativas no campo ambiental e é composto pelos capítulos três (a invenção do sujeito ecológico—p. 71-108), quatro (tornar-se educador ambiental: mitos de origem, vias de acesso e ritos de entrada – p. 109-144) cinco (o percurso da educação ambiental – p. 145-173) e seis (a política em trânsito e os trânsitos na política – p.174-208) do livro.

A primeira parte do livro, além de explicitar “a discussão conceitual sobre o logos hermenêutico” – anteriormente mencionado -, trata dos “entrecruzamentos do tempo e da experiência como marco interpretativo a partir do qual é possível aceder à trama dos sentidos contemporâneos e sua inscrição numa tradição que constitui seu horizonte histórico abrangente (p. 24). Quanto às noções nucleares dos dois capítulos da primeira parte, registramos o seguinte:

a) O primeiro capítulo, ao tratar do educador ambiental como intérprete, reivindica uma práxis que se situe para além do cenário ainda hoje fortemente biologizante. Desse modo, a autora assume uma postura epistêmica e política também crítica em relação ao clássico livro da natureza, o qual não evoca a interpretação, uma vez que a natureza aparece, aí, como simplesmente dada (concepção positivista). Nesses termos, segundo a autora, “os percursos pessoais e profissionais que aí se estabelecem atualizam possibilidades e reeditam as tensões abertas pelo contexto histórico e vivencial em que esse grupo [educadores ambientais] está imerso” (p. 29). Valendo das contribuições de Leff, a autora continua: “o saber ambiental é justamente aquele que desponta das margens da racionalidade científica (...) e sinaliza o desejo de um novo marco epistêmico que seja capaz de entender a complexidade das interações sociedade e natureza” (p. 29). Assim, “o deslocamento teórico-filosófico do ambiental em relação às ciências naturais [positivizadas] marca o campo discursivo de uma educação ambiental não naturalista” (p. 30). O educador ambiental, “diferentemente de um sujeito-observador, situado fora do tempo histórico, perseguindo os sentidos verdadeiros, reais e inequívocos” (p. 31), seria um sujeito- intérprete que “estaria diante de um mundo-texto, mergulhado na polissemia e na aventura de produzir sentidos a partir de seu horizonte histórico” (p. 31).

b) Dando seqüência ao primeiro, o segundo capítulo trata da tradição como horizonte de significação do ambiental. Segundo a autora, “a idéia de um educador intérprete, bem como a da invenção de um sujeito ecológico, emerge a partir de um solo histórico no contexto de um diálogo travado com a tradição” (p. 35). Ressalta-se que em se tratando de tradição ambiental, embora haja um referente pressupostamente universal, não há a preocupação de encontrar uma interpretação unívoca. Nesses termos, “há que atentar para a tradição como horizonte em que o sujeito ecológico, de um modo geral, e o educador ambiental, em particular, vão-se [sic] posicionar na condição de intérpretes” (p. 36). Cinco subcapítulos tratam de questões mais pontuais relativas à tradição (que antecede e é referência do ambiental enquanto fato social contemporâneo). Tem o capítulo, pois, o papel de evidenciar o círculo hermenêutico constituído pelo ambiental na história.

O primeiro subcapítulo trata da natureza como um bem na demarcação ética do campo ambiental. Concebida a natureza como um bem que se põe acima dos interesses imediatos e particulares e das ações instrumentais típicas da nossa sociedade, “o campo ambiental se constitui necessariamente engajado na disputa pelo poder simbólico de nomear e atribuir sentido ao que seria a conduta humana desejável e um meio ambiente ideal” (p. 37). O segundo subcapítulo—o campo no horizonte de significação do ambiental—afirma a idéia de que o campo ambiental pode ser visto “como uma consciência histórica particular, dentro de um universo histórico que o ultrapassa”. O horizonte histórico abrangente e o olhar de um determinado ponto por parte dos intérpretes do ambiental são os construtos centrais desse subcapítulo. O terceiro subcapítulo—sensibilidades e natureza—busca explicitar várias visões presentes no horizonte histórico, tidas como partes de uma tradição de longa duração e presentes no ideário ambiental contemporâneo. A autora destaca as “visões que passam pela compreensão iluminista de uma natureza controlada pela razão, pela visão pastoral idílica do naturalismo inglês do século XVII, pelas novas sensibilidades burguesas do século XVIII, pelo romantismo europeu dos séculos XVIII e XIX e pelo imaginário edênico sobre a América” (p. 40). O quarto subcapítulo—um ethos romântico-ecológico: o coração contracultural do campo ambiental—afirma ser a sensibilidade romântica aquela que “alimenta o anseio contramoderno por uma experiência alternativa, à margem de uma sociedade vista como utilitarista e predatória” (p. 53). A âncora dessa sensibilidade seria o ethos do campo (natureza como lugar utópico). O quinto e último subcapítulo – a América é a natureza – trata do modo peculiar como é concebida a América e o Brasil no imaginário ambiental, tanto na tradição quanto nos dias atuais. Segundo a autora, “as idéias acerca de uma ecologia política (...) não conseguiram dar o tom à tradição das idéias ambientais no Brasil porque não se impuseram ao forte imaginário que recai sobre o País e toda a América como Novo Mundo ou o mundo da própria natureza” (p. 63). Continua a autora: “o campo ambiental permanece em alguma medida atravessado por esse imaginário”. Em síntese, as noções de paraíso cristão, de um Éden que existiria no além-mar do velho mundo, acompanhavam o imaginário dos navegadores quinhentistas e ainda hoje estariam de alguma maneira presentes inclusive no “tratamento das questões ambientais relacionadas ao Brasil no plano internacional” (p. 63). Assim, a preocupação com o ecossistema amazônico e a Mata Atlântica nos leva a perguntas tais como: “em que medida esse cenário edênico fundador sobrevive e está afetando os novos olhares sobre esse continente”? (p. 66-7) e “como esses sentidos que permanecem numa tradição de longa duração são arriscados, reforçando e transformando valores, no complexo jogo de interesses e motivações que atravessa o campo ambiental”? (p. 67).

A segunda parte do livro, intitulada vidas e narrativas no campo ambiental, se ocupa da “compreensão das relações recursivas entre o campo social e trajetórias de vida, tomando a condição narrativa dessas interações como referencial teórico e a análise das trajetórias como caminho metodológico” (p. 24). Mais do que falar em referencial teórico e em caminho metodológico como dois momentos externos entre si, cabe dizer que a autora caminha, de fato, por um fio teórico-metodológico onde o sujeito ecológico pode aparecer tanto em sua genericidade quanto nas múltiplas singularidades. Assim sendo, o texto do conjunto dos capítulos dessa parte põe uma trama em que “constituem-se mutuamente um campo ambiental, um sujeito ideal ecológico, bem como as trajetórias profissionais e pessoais dos educadores ambientais, entendidas como uma expressão particular daquele sujeito ambiental” (p. 24).

Sendo a segunda parte voltada sobremaneira às vidas e narrativas colhidas junto aos dois líderes ambientais e aos dezesseis educadores ambientais já mencionados na parte inicial do presente trabalho, optamos por não explicitar idéias nucleares de todos os capítulos que seguem, mas, apenas, informar o teor geral de cada um e explicitar algumas idéias-força do imaginário ambiental. Consideramos não ser adequado traduzir, em forma de síntese, aqui, aquilo que podemos apreender como um esforço de caráter hermenêutico que tenta interpretar as múltiplas interpretações relativas ao campo ambiental no Brasil (enquanto tal complexo), especialmente dos líderes e educadores ambientais referidos.

O capítulo três (o primeiro da segunda parte do livro) trata da invenção do sujeito ecológico, tomando como referente teórico-metodológico a identidade narrativa proposta por Ricouer e que, segundo a autora, “perfila um sujeito ecológico” (p. 25). Ressaltamos o último subcapítulo – o re-ligare ecológico e a sacralização da natureza – pelo fato de a autora reconhecer no mundo vivencial ecológico a religiosidade mormente ignorada, quando não negada, por intelectuais e/ou militantes da causa ecológica. Nesse sentido, endossamos a autora ao dizer que “Diferentemente de um ativista que age num mundo desencantado, secularizado, (...) o sujeito ecológico parece ser atravessado por um espírito religioso cuja melhor expressão estaria no sentido latino de re-ligare, que alude a um movimento de realinhamento humano com a natureza como lugar do sagrado” (p. 99).

O quarto capítulo, sob o título tornar-se educador ambiental: mitos de origem, vias de acesso e ritos de entrada, ocupa-se especialmente da complexa trama imanente à formação do educador ambiental. Segundo a autora, “A referência aos conceitos de mito e rito tem aqui um valor sobretudo heurístico, na medida em que eles remetem às passagens (...) que fundam a identidade narrativa do sujeito ecológico (no caso do mito) e definem o hetero e o auto-reconhecimento do profissional da educação ambiental (no caso do rito)” (p. 110).

O quinto capítulo trata do percurso do educador ambiental (p. 145-173) enquanto “um conjunto de práticas educativas que buscam legitimidade dentro do campo ambiental e educativo” (p. 25). Nesse capítulo, a própria autora explicita os itens (p. 145-6) destaque, quais sejam: a) o contexto histórico e as condições institucionais que caracterizam o ambiente político em que se desenvolve a EA no Brasil; b) uma história da EA que vai sendo narrada, tornando-se recorrente e naturalizando um enredo comum no qual se situam os educadores; c) a produção editorial que revela o estado de constituição dessa temática e seu reconhecimento na sociedade; e d) a formação em EA a partir da institucionalização de cursos que começam a surgir nas universidades, ONGs e órgãos públicos.

O sexto e último capítulo, denominado a política em trânsito e os trânsitos na política (p. 174-208), trata das “tensões da ação política no campo ambiental”, considerando “um duplo movimento: os trânsitos políticos dos sujeitos ecológicos e as transformações da esfera pública na contemporaneidade que caracterizam uma política em trânsito” (p. 25). Nesse capítulo merecem especial atenção três subcapítulos que implicam, inclusive, um feliz alargamento do conteúdo do capítulo. O primeiro deles, a questão ecológica: entre bios e polis, nos subsidia sobre a tensão já universal entre a biologização da política e da politização da natureza. Acreditamos que tal tensão nos repõe, constantemente, a exigência de uma práxis ancorada num conceito epistêmica e politicamente capaz de superar qualquer reducionismo. A nosso ver, o conceito complexidade dá conta dessa exigência. O quarto subcapítulo—como consolidar o espaço público a partir de uma política do eu? – é altamente instigante na medida em que trata, entre outros, da questão (paradoxal?) do personalismo na Nova Esquerda e por poder ser essa pergunta traduzida em outra ainda mais emblemática e enfática: “como fazer política a partir da não política?” (p. 199). O quinto subcapítulo, a emancipação no mundo e a emancipação do mundo: os paradoxos da autonomia, discute densamente as tensões ética e estética, morte da política e o surgimento de uma nova política, o público e o privado. Segundo a autora, “a questão sobre as novas formas da ação política e sobre o paradoxo de uma política como saída da política – uma política ‘não-política’ – permanece particularmente cara ao campo ambiental e ao sujeito ecológico” (p. 208).

Nas considerações finais (p. 209-212) a autora avalia a sua própria condição de pesquisadora imersa na práxis ambiental que, no caso, foi tanto “inventando o outro” quanto “recriando o eu”. Nessa condição, afirma a autora que “foi possível vislumbrar os traços de um ethos romântico, de um habitus militante, das novas formas de religiosidade e dos dilemas que tensionam o projeto ecológico emancipatório” (p. 210). A autora ainda revela que quando “esse sujeito ecológico é visto desde sua face subjetiva nas trajetórias de vida, revela-se na fala sobre a experiência íntima a disjunção (...) com o discurso do sujeito político” (p. 210). Ainda afirma a autora que “Dentro do universo amplo do sujeito ecológico (...) são múltiplos os caminhos, as vias de acesso e os ritos de entrada pelos quais pode se tornar um educador ambiental” (p. 211) e “como a identidade de educador ambiental está longe de ser uma identidade totalizante” (p. 211). Evocando não apenas uma transformação política, mas também uma transformação da política (“maneira de compreender , viver e fazer política, acenando com novos trânsitos e também com possíveis riscos para a própria esfera política” – p. 211), a autora afirma ser a pergunta, qual a contribuição da ação ambiental para a esfera pública, a inquietação que perpassa todo o livro. Nesses termos, o centramento da Educação Ambiental ganha total legitimidade. Coerente com o fio teórico-metodológico adotado, a autora encerra o livro dizendo que “cabe refletir sobre as ações e caminhos tomados, com a abertura de quem sabe que a razão participa mas não controla os caminhos da experiência e da produção de sentidos” (p. 212). Assim, fica o convite não apenas para a transformação da política, mas também para a transformação da epistemologia no que se refere à temática ambiental, especialmente da Educação Ambiental.

Acerca da autora do livro

Isabel Cristina de Moura Carvalho. Importante se torna apresentar a autora do livro, na medida em que a construção por ela realizada está intimamente imbricada com a sua vida cidadã, acadêmica e profissional. Pessoa há mais tempo sensível aos problemas estranguladores de nossa sociedade—o que se revela, entre outros, na sua atuação, juntamente com Betinho (sociólogo Herbert de Souza, que, conforme a página http://www.aids.gov.Br/betinho, além de ter coordenado o IBASE, foi coordenador da Ação pela Cidadania contra a Fome e a Miséria, foi presidente da ABIA e ajudou a fundar o ISER—Instituto de Estudos da Religião), no IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – uma organização não-governamental, suprapartidária e sem fins lucrativos)—vem evidenciando um compromisso contundente no sentido da superação das questões limites enfrentados pelo coletivo humano que busca uma relação Homem-Natureza sem qualquer barbárie. Nesse sentido, vale informar que a autora é atuante em movimentos sociais ambientalistas e atua, profissionalmente (p. IV), como assessora da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER do Rio Grande do Sul—RS, bem como professora do curso de Gestão Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente—IBAMA e do Curso de Especialização em Projetos Sociais e Culturais do IFCH da Universidade Federal do Rio Grande do Sul—UFRGS. Segundo a própria autora (p. 15), “As inquietações que sustentam este livro têm como pano de fundo minha inserção como psicóloga, educadora e pesquisadora social, desde o início dos anos 80, no contexto ambiental brasileiro”.

Sobre o autor da resenha
Ari Paulo Jantsch é Professor do Departamento de Estudos Especializados em Educação – EED do Centro de Ciências da Educação – CED da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Mestre em Planejamento Educacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Doutor em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. Integra o Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC desde 1997, em que atua nas linhas de pesquisa de Trabalho e Educação e de Educação e Comunicação. Atualmente é pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS, tendo como interlocutor o Prof. Dr. Nilton Bueno Fischer. Desenvolve pesquisa voltada ao pequeno agricultor do sul do Brasil, tendo como conceitos norteadores a complexidade, a interdisciplinaridade e a comunicação. É membro do Grupo de Trabalho de Filosofia da Educação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – ANPEd. Entre suas publicações, destacam-se:

Jantsch, Ari Paulo. Pequeno (ainda) agricultor e racionalidade educativa. Florianópolis: Núcleo de Publicações (UFSCCED), 2001. 252 p.

Jantsch, Ari Paulo e BIANCHETTI, Lucídio (Orgs e co-autores). Interdisciplinaridade: para além da filosofia do sujeito. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1995. 204 p.

Schaeffer, Sérgio e JANTSCH, Ari Paulo. O conhecimento popular. Petrópolis: Vozes, 1995. 182 p.

Nota

Sendo a obra em análise a tese de doutorado da autora, defendida no Curso de Doutorado em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, cabe informar, preliminarmente, que a pesquisa que originou o livro, contou com a orientação da Doutora Nadja Hermann. Além dessa relevante orientação teórico-metodológica da tese, a produção final contou com sugestões dos professores e pesquisadores Carlos Rodrigues Brandão, Hans George Flikinger, Enrique Leff, Cornélia Eckert, Malvina Dornelles e Nilton Bueno Fischer. A apresentação é da própria orientadora dos trabalhos de pesquisa que originaram a tese de doutorado e o livro aqui analisado.

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